terça, 16 de janeiro de 2018
Carimbo Reprise

História de Santos - Parte II

Drª. Wilma Therezinha fala sobre a cidade de Santos   "A praia é um exemplo e uma prova de que a humanidade pode conviver pacificamente." História de Santos - Parte II

Painel Entrevista - A Senhora é doutora em história pela USP.

O que motivou a Senhora a ser uma historiadora?

Drª.

Wilma Therezinha: Sempre gostei de História e de estudar desde criança.

Tive ótimos professores de História.

Acho que isso me influenciou.

Eu estava na primeira série do ginásio e me interessava muito.

Foto: Equipe de fotografia Eu gostava tanto de História que uma vez, quando fui à escola receber os livros daquele ano durante o trajeto de volta para casa, que realizara a pé, já havia lido todos os livros.

Li-os na rua tal a curiosidade que eu tinha.

Fiz todos os cursos regulares: o primário e o secundário.

Queria estudar História, mas como não havia curso superior em História, aqui em Santos, fui estudar no “Sedes Sapientiae”, em São Paulo, que é da PUC - Pontifícia Universidade Católica.

Fazia História e Geografia e, quando foi lá pelo 3º ano, é que me decidi por História.

Fiz especialização em História da Antigüidade e acredito ser a 4ª mulher a ter feito isso, porque no “Sedes” naquele tempo não era obrigatório.

Depois fiz mestrado e doutorado pela USP – Universidade de São Paulo.

Cursei História, e nunca me arrependi, estudo até hoje, acho que é uma ciência interessante, porque nunca é acabada, você está sempre pesquisando, sempre descobrindo coisas, é uma fascinante ciência social.

Graças a Deus eu acertei e me realizo como professora de História e historiadora.

Painel Entrevista - A Senhora fez menção aos mosaicos das calçadas de Santos.

A Senhora poderia nos contar algo sobre esse tema?

Drª.

Wilma Therezinha: Ninguém presta muita atenção nas calçadas.

Vocês estão tocando num assunto muito importante.

A calçada é a área de trânsito dos pedestres.

Os automóveis têm as ruas.

A calçada é uma faixa de segurança onde as pessoas andam a pé.

Tem um piso que é comum, é firme, é o piso mosaico.

Em Santos, temos o piso comum, o piso de mosaico-português, irregular e grande, e o mosaico-romano, que é pequenininho, de aproximadamente 1 cm quadrado, que permite fazer desenhos, bem minuciosos.

Aqui em Santos, temos os dois tipos desse mosaico-romano, que é chamado de tessela, que foi inventado pelos romanos no século II d.

C.

O encontramos no piso da calçada, onde hoje é o anexo da Câmara Municipal de Santos, na rua XV de novembro, e ao redor do monumento ao Bartolomeu Lourenço de Gusmão, na praça Rui Barbosa.

Aliás, eu já revindiquei várias vezes o concerto da calçada da Câmara Municipal, mas até agora nada foi feito, está em péssimo estado, vou continuar a insistir.

Eu queria esclarecer o seguinte: em Santos é muito comum o uso do mosaico-português, imitando o desenho Copacabana e o copacabaninha que é pequenino e imita o Copacabana.

Todo mundo pensa que o desenho se origina do Rio de Janeiro.

Mas não é, a inspiração dele é da Amazônia, é justamente a mistura das águas do rio Negro, que são escuras, com as águas do rio Amazonas, que são mais claras, que se encontram em Manaus e não se misturam imediatamente, levam quilômetros e quilômetros até se misturarem.

Um passeio que você pode fazer em Manaus é tomar um barco e acompanhar o movimento delas até se misturarem.

Então, foi inspirado nesse movimento das águas que surgiu essa concepção, que é bem brasileira, que é o preto e o branco, mostrando esse movimento sinuoso.

O Rio de Janeiro é um modelo para o Brasil e toda cidade aspira ter alguma coisa dela, pela sua beleza e prestígio.

Santos não escapou disso, acho muito bonito, é algo que nos identifica logo.

Painel Entrevista - Conte-nos um pouco sobre seu livro "Presença da Engenharia e Arquitetura na Baixada Santista”.

Drª.

Wilma Therezinha: Eu sou historiadora, não sou nem engenheira e nem arquiteta, mas gosto muito de arquitetura e urbanismo.

A minha tese de doutoramento foi sobre “Urbanismo de Santos”.

A engenharia que está muito ligada ao urbanismo e à arquitetura, tem muito a dizer sobre a história, porque ela não é feita só dos documentos nos arquivos e nas bibliotecas.

Você, para estudar e construir a história, precisa ter um leque de informações, as diferentes linguagens e vestígios que o homem deixa através do tempo e do espaço.

A maior construção do homem é a cidade.

Nela tem o urbanismo e a arquitetura.

Até pelo Plano Diretor de uma cidade você poderá ter uma idéia do desenvolvimento dela.

Se você pegar a planta de Santos do Centro e comparar com a urbanização da Ponta da Praia, você verá a diferença.

São linguagens diferentes.

A arte, a escultura e a pintura são também linguagens.

Olhando a imagem, observando, criticando e estudando, elas revelarão informações históricas.

Eu usei a presença da arquitetura e urbanismo, dos nove municípios da Baixada, como uma fonte de informações e como referenciais, porque os monumentos são um produto de uma arquitetura e num projeto sãoimportantes.

Por exemplo, aqui em Santos, um dos referenciais é a Praça da Independência, onde está o monumento aos Andradas e se alguém perguntar onde você mora, e se responder que mora no canal 1, na verdade, essa resposta quer dizer que você mora nas imediações do canal 1, e isso é um referencial.

Todo o ser humano tem a necessidade de ter uma referência para se situar e ter demarcado o seu território.

Acho isso muito importante e é por isso que eu fiz um elenco dos principais monumentos desses municípios.

Uns bem antigos, outros mais recentes.

São formas em que o homem vai marcando a sua presença e a sua utilização sobre o espaço que ocupa.

Painel Entrevista - A reconstrução do Coliseu cumpriu com suas expectativas?

Drª.

Wilma Therezinha: Quando eu lecionava no Instituto Municipal de Comércio, tinha um colega que era advogado, ele chegou à noite, lá, e disse que estavam demolindo a parte de trás do Coliseu.

Então, reuni um grupo de pessoas, arquitetos, fotógrafos, jornalistas e pessoas interessadas pela preservação do patrimônio e resolvemos pedir o tombamento.

Aqui não tinha ainda o CONDEPHASA – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural de Santos.

Então, montamos todo um processo, que era muito complicado, e fomos entregar pessoalmente em São Paulo.

Consegui reunir três mil assinaturas, porque ao tomarem ciência de que o teatro estava sendo demolido, ofereciam-se para assinar.

A restauração levou mais de vinte anos.

Ela foi bem feita, porque fora feita uma pesquisa para saber como era o Coliseu Santista, que é de 1924 e que atravessou muitas décadas, sofrendo muitas alterações e reformas, necessitando voltar ao que era.

Agora, se você me perguntar: ele voltou como a ser como era?

Bem, voltou na parte artística, por exemplo, o teto, as pintura do teto, aquela parte que era comercial foi retirada e o saguão ampliado.

Agora ele tem coisas modernas.

As artes cênicas e as técnicas teatrais evoluíram desde 1924.

Quando ele foi inaugurado, em 1924, era moderno, mas para o final do século 20, início do 21, já não era o ideal, então, foram embutidos equipamentos para que funcione, na sua aparência como sendo da década de 20, porém é um teatro super-moderno, em matéria de acústica e iluminação.

Eu conversei com o arquiteto Nelson que fez o projeto, que é da Prefeitura e que fez tudo embutido.

Foi um casamento entre a tradição e a tecnologia.

Eu, particularmente, fiquei muito satisfeita.

Painel Entrevista - Qual lugar de Santos que a senhora mais aprecia e por quê?

Drª.

Wilma Therezinha: Essa foi a pergunta mais difícil que vocês me fizeram.

Eu amo a cidade, gosto desde os pisos até os grandes monumentos, os jardins da praia, mas, se eu tivesse que escolher um lugar, eu escolheria mesmo a praia e vou explicar porquê.

Num domingo de sol, feriadão, quando o povo todo vai à praia, eu acho que é um exemplo e uma prova de que a humanidade pode conviver pacificamente, porque naquela vasta extensão de areia, você encontra famílias, casal de namorados, crianças fazendo castelinho, velhinhas tricotando, moças que se encontram para bater papo, um ao lado do outro, onde todos convivem democraticamente, um respeita o outro, mesmo que estejam próximos fisicamente.

Acho que é uma prova de que a humanidade um dia poderá viver em paz.

Quando passo pela praia e vejo aquele pessoal todo sossegado, usufruindo o lazer, acho isso muito legal.

Tem horas que a praia é utilizada pra jogos.

A praia é uma área livre, sem nenhuma discriminação, separação, enquanto que o jardim tem um desenho, tem a parte dos jardins de fato e as alamedas, por onde as pessoas circulam.

Então ele se constitui de uma área em que você pode andar e de uma outra em que não se pode pisar.

O jardim é uma barreira que impede o outro lado, que tem o trânsito da avenida, chegue muito perto da área de lazer, que é a faixa de areia.

O jardim, além de ser lindo, é uma representação humana do paraíso.

Então, vejam que nós, em Santos, temos de um lado o paraíso e do outro o mar.

As sombras dos prédios não os atingem, pois eles estão bem afastados.

Nós temos um lugar especial, lindo e democrático aqui em Santos que é a orla da praia.

Envie comentários para: opiniao@colegiouniversitas.com.br EQUIPE DE REDAÇÃO, PESQUISA E APOIO 8ª.

Quintino de Lacerda André Carballido Dominguez.

Allan Pessoa Garcia.

Iago de Carvalho Tomé.

Marco Aurélio do Nascimento Espinosa.

Marcel Patavino Mazzi.

Pedro Demétrio Haick.

Pedro Viotti Godinho.

DATA DA REALIZAÇÃO 17/10/2006.

ORIENTAÇÃO Profª.

Elsie Briggs Padron.

COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA Prof.

Lenine Righetto.

Congratulações “O Colégio Universitas agradece a todos os colaboradores desse projeto que com empenho e dedicação contribuíram para o enriquecimento do conteúdo do painel entrevista do Portal Universitas e de si próprios.

PRÓXIMO ENTREVISTADO Prof.

Alcindo Gonçalves.

O tema a ser abordado: "Institutos de Pesquisa e o IPAT".

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