terça, 16 de janeiro de 2018
Carimbo Reprise

História de Santos - Parte I

Drª. Wilma Therezinha fala sobre a cidade de Santos   "Os piratas trabalhavam por conta própria, não tinham patrão, eram uma espécie de free-lancer." História de Santos - Parte I

A Drª.

Wilma Therezinha Fernandes de Andrade é santista, filha de pais santistas, fez todos os cursos regulares e, como não havia curso superior em História, aqui em Santos, foi estudar no Sedes Sapientiae, em São Paulo, que é da PUC - Pontifícia Universidade Católica.

Fez, também, especialização em História da Antigüidade.

Tem mestrado e doutorado na USP, sempre sobre a cidade de Santos.

Foi convidada pelo Monsenhor Manoel Pestana para dar aulas e está na Unisantos há 40 anos.

Foto: Equipe de fotografia Painel Entrevista - A Senhora poderia nos contar um pouco sobre a origem do nome da cidade de Santos?

Wilma Therezinha: Existem três hipóteses sobre a origem do nome Santos.

A primeira hipótese, que foi comumente aceita, por quase dois séculos, era do historiador beneditino Frei Gaspar da Madre de Deus, que escreveu Memórias para a História da Capitania de São Vicente, onde explica a origem do nome da cidade.

Ele conta que, quando Brás Cubas fundou a Irmandade da Misericórdia, mantenedora da Santa Casa, por volta de 1543, havia um hospital chamado de “Todos os Santos”, em Lisboa, e que aos poucos foi repassado para o nome da vila, e pela lei do menor esforço, passou a ser simplesmente Vila de Santos.

Essa era a tese que todo mundo aceitava, porém surgiu uma segunda hipótese, defendida pelo historiador Francisco Martins dos Santos, que contestou isso, dizendo estar incorreto, porque o hospital de “Todos os Santos”, que o frei Gaspar disse existir em Lisboa não tinha esse nome na época em que a vila de Santos foi fundada.

Para ele o porto de Lisboa, que é grande, largo e bem extenso, possui um trecho que é chamado de Porto de Santos, onde Santos é o nome de um bairro de Lisboa, tal como aqui: o cais do Paquetá, o Saboó, entre outros nomes.

Então concluiu que a origem do nome da cidade deve-se a essa semelhança geográfica do nosso porto, aqui na ilha de São Vicente, com o porto lisboeta.

Ele inclusive publicou um mapa para ilustrar a tese.

Há uma terceira hipótese que é a seguinte: em 1515, portanto bem antes da fundação e do estabelecimento do Povoado, passou por Santos um navegador, a serviço da Espanha, chamado João Dias de Solis, que ia pro sul, aliás foi um dos descobridores do Rio da Prata, ao passar aqui pelo estuário, deu-lhe o nome de “Rio dos Santos Inocentes”, pois confundiam o estuário como um rio.

Isto ocorreu no dia 28 de dezembro, que é o dia dos Santos Inocentes, iam segundo o calendário cristão-católico (os Santos Inocentes eram aqueles meninos que foram mortos, por ordem de Herodes, rei muito cruel, porém o Menino Jesus conseguiu escapar, sendo levado para o Egito).

Então, pela lei do menor esforço, em lugar de “Rio dos Santos Inocentes” passou a ser chamado de Rio de Santos, transferindo-se, posteriormente, o nome ao Povoado.

Painel Entrevista - Como a cidade foi fundada?

Wilma Therezinha: Interessante, temos que analisar desde a pré-fundação.

A nossa região foi descoberta em 1502, portanto dois anos depois do descobrimento do Brasil e, como era de costume, consultaram o calendário católico para atribuir um nome (era dia de São Vicente Mártir) e, como acreditavam que o estuário era um rio, deram o nome de Rio de São Vicente e ancoraram na Ponta da Praia, mais ou menos, onde é hoje a Ponte de Práticos.

Ali foi a origem de tudo.

Como Cabral não poderia permanecer muito tempo, o rei D.

Manoel ordenara que uma expedição fizesse um levantamento cartográfico para ver o que havia nestas terras.

Então, em 1502, foi feito um grande mapa em que consta a denominação Porto de São Vicente e essa descoberta foi realizada por Gonçalo Coelho.

Então se alguém perguntar quem descobriu o Estado de São Paulo, pode afirmar que foi Gonçalo Coelho.

Essa mesma expedição deixou o degradado em Cananéia, porque eles achavam que era o final da área dos portugueses, pelo tratado de Tordesilhas.

Então, esse degredado, não sabemos o que ele aprontou lá em Portugal para que fosse trazido para o Brasil, deixou Cananéia e veio para cá (Ilha da São Vicente) onde se casou com a filha de um cacique, aliás eles eram muito espertos: os portugueses, só se casavam com as filhas de caciques.

O casal teve muitos filhos e filhas e à medida que as filhas foram crescendo, foram casando com outros aventureiros e náufragos que vinham para cá.

Foi-se formando um Povoado, um núcleo de pessoas que ficava em São Vicente.

O porto continuava na Ponta da Praia.

Eles iam a pé pela extensa praia até chegar ao Povoado.

Ainda não era uma vila, pois ele não tinha autoridade para fundar uma vila.

Uma coisa importante: hoje a palavra vila para nós, brasileiros, não tem muito prestígio, mas naquela época era muito importante.

Em Portugal havia muitas.

Hoje algumas estão com 700 anos e ainda continuam sendo chamadas de vilas, eles não fazem questão de que sejam chamadas de cidades.

Quando da vinda de Martim Afonso, que aqui chegou em 1532, o Bacharel de Cananéia, que sabia de sua vinda, voltou com a sua família para Cananéia.

Com a chegada de Martim Afonso, a região e o porto ficam conhecidos, os espanhóis que passavam por aqui faziam negócios com o Bacharel, pois eles precisavam de alimentos frescos, portanto, havia uma troca de interesses comerciais.

Para não perder essa oportunidade, Martim Afonso, ao ver que estava diante de um Povoado e cujo porto já era conhecido na Europa, reúne 32 homens que estavam consigo e pede para que fiquem aqui.

Eles aceitam.

Então, Martim Afonso distribui as chamadas sesmarias para eles.

Entre os que ficaram, estava Brás Cubas, jovem, ambicioso, cheio de iniciativa, porém sua sesmaria ficava onde hoje é Santos continental, no rio Jurubatuba, e os índios inimigos, os tupinambás, não o deixou aproveitá-las.

Como ele tinha dinheiro, comprou as terras onde hoje é o centro de Santos e se estabelece junto ao Morro, chamado Outeiro de Santa Catarina, nessa área havia água e o morro do Monte Serrat.

Esses fatores constituíam as condições ideais para as caravelas atracarem.

Enfim, um lugar ótimo, excelente, plano e que as protegeria dos ventos, um porto natural com profundidade para naus e caravelas.

Posteriormente, o porto deixa de ser na Ponta da Praia e passa a ser, mais ou menos, onde hoje é a Alfândega.

Inicialmente, recebe o nome de Porto da Vila de São Vicente.

As pessoas começam a se concentrar ali e é fundada uma nova Povoação.

Como Brás Cubas fora constituído como capitão–mor, uma espécie de governador da Capitania de S.

Vicente, pois Martim Afonso já havia ido embora, elevou essa Povoação à categoria de Vila.

São Vicente já havia sido elevada à condição de Vila por Martim Afonso.

Nós não sabemos exatamente a data dessa transferência da Ponta da Praia, supomos que tenha sido por volta de 1541, e a elevação à Vila, entre 1545 e 1547.

Painel Entrevista – Drª.

Wilma Therezinha conte-nos um pouco sobre o Museu de Arte Sacra e a ligação da imagem de Santa Catarina de Alexandria com a cidade.

Wilma Therezinha: O Museu está localizado no morro de São Bento.

Os monges beneditinos vieram em 1650 e se estabeleceram ali, onde havia uma capelinha de Nossa Senhora do Desterro.

Foi construído o mosteiro na forma em que está agora.

Por não terem condições de conservá-lo, em 1981, os monges desistiram e o passaram para a Cúria Diocesana.

Dom David Picão, bispo da época, resolveu criar um local para proteger as obras de artes sacras e religiosas.

O próprio edifício do museu já é um documento histórico, é um monumento que teve sua forma definitiva no século XVIII e que aproveitou até a capela.

Ele reuniu peças que estavam guardadas no salão da Cúria na Av.

Conselheiro Nébias, peças que vieram de Santos e de outros locais da Diocese que estavam abandonadas e que foram doadas, reunindo todo um acervo muito valioso.

O Museu de Arte Sacra é de 1981 e é o segundo mais importante Museu de Arte Sacra do Estado de São Paulo.

Temos peças importantíssimas.

Possuímos uma raridade, a imagem de Nossa Senhora da Conceição de 1560.

Nesta época, Brás Cubas e o Padre José de Anchieta estavam vivos, só para vocês terem uma idéia da antigüidade dessa peça.

Ela já esteve exposta no Rio de Janeiro, Lisboa e Nova York.

Outra imagem que também está muito ligada inclusive à história de Santos é a de Santa Catarina de Alexandria, que pertencia à capela de Santa Catarina, que está ligada à origem da fundação de Santos, esta imagem foi jogada ao mar pelo corsário Thomas Cavendish, em 1951, e depois recuperada.

Painel Entrevista – Qual é a diferença entre pirata e corsário e quem era Thomas Cavendish?

Wilma Therezinha: Santos era atacada por piratas e corsários porque era uma das vilas do litoral, e nessa época havia uma pirataria intensa na América em que, os piratas, tinham como sede uma daquelas ilhas da América Central.

A diferença entre o pirata e o corsário é que o corsário tinha uma carta de corso.

O rei ou rainha dele dava uma autorização para saquear os países inimigos.

O pirata trabalhava por conta própria, não tinha patrão, era uma espécie de “free-lancer”.

Eram muito cruéis, havia corsários que vinham da França, da Inglaterra, e Thomas Cavendish foi o corsário que atacou Santos em 1591, enquanto a população rezava a missa do Galo, na Noite de Natal.

Foi uma coisa horrível, eles atacaram Santos, porém a população conseguiu fugir.

Eles ficaram dois meses em Santos, saquearam a cidade, roubaram tudo o que puderam, e depois foram embora.

Só que a história não acabou aí, eles foram para o Sul, iam para o Pacífico, pelo estreito de Magalhães, mas como demoraram muito por aqui, ao chegarem no sul, enfrentaram um clima muito frio, e naquela época não tinha climatização, só podiam contar com agasalhos para se protegerem do frio.

Eles não agüentaram aquele frio da região da Patagônia, voltaram e atacaram Santos, novamente, só que eles se deram muito mal, porque foi colocada uma pessoa, lá cima, no Morro da Vigia, hoje conhecido por Monte Serrat, para olhar os navios que entravam pelo estuário.

Um sino era tocado, a rebate, para avisar a população da entrada de navios.

Depois de ter sofrido aquele ataque, todos se preparam e esperam os corsários desembarcarem na praia.

Já imaginaram uma luta na praia de Santos entre a população e os corsários?

Os homens, de Thomas Cavendish, perdem e dos 22 homens que desembarcaram, vinte são mortos e deixam dois vivos para voltar aos navios e contar o que tinha acontecido, porque dois é um número jurídico de testemunhas.

Quando do primeiro ataque, eles pegaram a imagem de Santa Catarina e, por serem protestantes, lançaram-na ao mar.

Depois de mais de setenta anos, os escravos do Colégio São Miguel, dos jesuítas, acharam a imagem que foi recuperada e construída uma segunda capela.

Ao demolirem o Outeiro de Santa Catarina, a imagem foi transferida para a Irmandade de Nª Senhora do Amparo, na Catedral.

Com a criação do Museu de Arte Sacra, ela retornou e passou a figurar num lugar de honra.

Indo lá, vocês poderão ver obras de arte, tanto da Europa, como também, obras de arte brasileira.

Pouca gente sabe que São Paulo, no século XVII, teve uma escola de escultura, que fazia imagens.

Por exemplo, a imagem de Nossa Senhora de Aparecida e até a imagem de Nossa Senhora de Lujan, que é a padroeira da Argentina, foram feitas por esse grupo de escultores que eram beneditinos.

Atualmente, sou a vice-presidente do museu, que é uma das minhas paixões.

“Painel Entrevista pesquisou e encontrou a informação de que, durante a primeira invasão realizada pelo corsário Thomas Cavendish, o Colégio dos Jesuítas, as igrejas e edifícios públicos de Santos foram todos saqueados e a maior parte deles queimados, inclusive a Igreja de Santa Catarina - que fora construída por Luís de Góes e sua mulher, dona Catarina de Andrade e Aguillar, em 1553, junto ao outeiro do mesmo nome que quase foi totalmente destruída.

Durante o ataque ao outeiro, além das jóias e alfaias, eles levaram também as imagens da igreja para bordo”.

Saiba o que virá na segunda parte desta entrevista: - Drª.

Wilma Therezinha conta o que a motivou ser historiadora.

- Fala sobre os mosaicos das calçadas da cidade de Santos.

- Aborda sobre o seu livro "Presença da Engenharia e Arquitetura na Baixada Santista".

- Fala sobre a reforma do Teatro Coliseu.

- Diz porque a praia é o local que mais aprecia na cidade.

Envie comentários para: opiniao@colegiouniversitas.com.br EQUIPE DE REDAÇÃO, PESQUISA E APOIO 8ª.

Quintino de Lacerda André Carballido Dominguez.

Allan Pessoa Garcia.

Iago de Carvalho Tomé.

Marco Aurélio do Nascimento Espinosa.

Marcel Patavino Mazzi.

Pedro Demétrio Haick.

Pedro Viotti Godinho.

DATA DE REALIZAÇÃO 17/10/2006.

ORIENTAÇÃO Profª.

Elsie Briggs Padron.

COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA Prof.

Lenine Righetto.

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